DREAM 262

Estavamos já, há tempos, privados de recursos. Vivendo do mínimo, em escassez, vagando pela cidade, se virando de qualquer jeito, sem trabalhos nem nada, apenas sobrevivendo. Um grupo pequeno. Carinhoso/apático, sobrevivente. Era noite e eu consegui alguns mantimentos pra fazer uma comida gostosa. Nos sentamos no píer, nesses píers que existem aqui no Danúbio, em Budapeste. Cortei cenoura, os ítens todos, colocamos nos pratos que haviam e começamos a comer. Consegui também um pouco de macarrão oriental, de Ramen, e pensei que seria uma delícia ter água quente para colocar junto. Mas não havia essa possibilidade. Observei com desejo o pacote cheio de macarrão branco nas mãos. Chegam uns dois policiais. Uma movimentação, talvez um barco atracou. Eles começam a chutar tudo, todo mundo se levanta, já vão levando embora alguns dos meus amigos. Fico puta. Um deles abre minha mochila vermelha, começa a revirar e encontra um flagrante. Já começa a me esculachar que as coisas foram compradas sem nota fiscal, que era tudo ilegal. Era um material de papelaria, e eu não queria abrir mão da aquarela nem fudendo. Era mais importante do que a comida, na real. Eu não sentia fome alguma. Começo a negociar com ele. Falo que aquilo é só aquarela… Que não fazia sentido, que nem era uma compra na real… Começo a fechar a mochila ainda na mão dele, vou pegando ela devagar, saio pra seguir o grupo que o outro policial já levava. Eles me veem e não acreditam que consegui recuperar a mochila. Corta para. Estamos dentro de um banheiro bizarro de shopping, daqueles shoppings de rico em que o banheiro (feminino, lógico) tem grandes espelhos, uma área de sofás e espera, pias douradas, horríveis e ditas luxuosas. O banheiro é um tanto labiríntico e tem alguns ambientes. Muitas mulheres esperam para usar os vasos, conversam mas, principalmente, se maquiam. Entram os mesmos policiais. Se aquarela já era problema, imagina maquiagem. Começam a quebrar tudo, prender gente, mandar dissipar. Uma mulher reclama, contraria. Começo a ouvir tiros de automática. Meus Deuses, o cara tá atirando em todo mundo! Todo mundo começa a correr, eu inclusive. Aí decido voltar, não dá pra deixar a Nathália lá, minha colega brasileira de sala. Vou decidida. Penso que vou abaixada, atrás dos móveis, agarro ela pelo pulso e corro rápido. Quando chego no ambiente com os espelhos e poltronas vejo a Anna, nossa colega italiana de sala. Morta com vários tiros, ela está prostrada de olhos bem abertos, cabeça pro teto, em uma das poltronas. Alí eu entendo. Meu Deus, eles metralharam a italiana. Imagina o que não farão conosco.

ALICIA SANTOS PERES

São Paulo | Budapeste

Brazil | Hungria

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