DREAM 500

 Estava na coxia preparada para entrar em cena. Todos os atores já estavam e a minha entrada era esperada pelo público -eu era a protagonista e era uma grande estrela do teatro. Quando entrei, atravessei o palco inteiro e a platéia acompanhava meus passos com espectativa. Na hora de falar o texto, eu não lembrava o que deveria ser dito, não sabia nem do que se tratava a história, não reconhecia os personagens. Improvisei e saíam apenas letras todas misturadas como numa sopa de criança, nada do que eu falava fazia sentido algum, não se formavam palavras. O autor do texto se afundava na cadeira de constrangimento e arrependimento de ter me confiado aquelas mensagens. O diretor nervoso fazia sinal de “sai, sai daí!” Levantei minha cabeça, firmei um olhar penetrante que mantia o público comigo e era a única parte de mim que estava presente. Saí de cena e compreendi que havia perdido a capacidade de atuar, olhava o texto e as palavras não encontravam ordem na minha mente e daqui a pouco eu nem sabia mais o que estava fazendo ali naquele lugar estranho com aquelas pessoas me olhando preocupadas. Era o triste fim de uma atriz dos palcos -louca, confusa e sem memória.

Glaucy Fragoso

Rio de Janeiro

Brasil

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