DREAM 487

Meu corpo ardia. Trinta e nove graus e meio, talvez até quarenta graus. Fui lá fora para sentir um frescor que fosse possível suportar aquela temperatura, todo aquele calor tornava impossível dormir e o céu parecia oferecer uma possibilidade. Havia um vento gelado, vinte graus aparentemente, e ao amanhecer me deparei com um céu azul, pela primeira vez em 29 anos. A última vez que eu vi um céu azul, foi no ano do fim do mundo. O céu até então, parecia sempre avermelhado, mesmo a noite, quando não era cinza durante o dia.

Na rua não havia nada, olhei ao longe do alto onde eu dormia e parecia que havia um barulho, mas eu não conseguia ver nada, nada. Onde eu morava não morava mais ninguém, era um lugar ermo, desértico. Eu achava por algum motivo que esperava um bebê, devia ser solidão. Sofria ansiosa com a hora do parto. E precisava ir ao médico. Me preparei para isso, guardava um antigo carro como uma joia para um dia chegar a algum lugar, no meio do caminho da viagem o carro parou, voltei para casa. Caminhei muitos quilômetros e muitas horas depois eu avistei um ônibus, ele estava puxando o meu carro, e ao parar, desceu um rapaz perguntando se era meu. Eles me zoaram e perguntaram se eu queria ir beber com eles em algum lugar. Concordei. Sentia que tinha febre, mas estava feliz pelo encontro com aquelas pessoas tão alegres. Ofereci hospedagem, um lugar para dormirem. Me perguntaram se eu tinha filhos. Achei curiosa a pergunta. Contei que um dia eu tive um menino. Lembrei do céu azul, e do dia que ele me pediu para empinar uma pipa, tinha muito vento e consegui subir um pipa em segundos. Meu filho me perguntou pra que serviam as pipas, e eu respondi, para conquistar, e logo em seguida ele havia cortado todas as pipas do céu que desceram juntas de uma só vez, enroladas umas nas outras. Meu filho tinha uma expressão de pavor e me pediu para ajudá-lo a desembaraçar aquela confusão de linhas. De repente a dele se desprendeu, e ele saiu correndo. Era a última lembrança que tinha dele. Ele havia ido embora a muito tempo. Meus novos amigos começaram a tirar peças de brechós de sacolas e começaram a arrumar a minha casa com as coisas, eram muitas roupas e objetos, gravuras, pinturas, em segundos minha casa tinha um cenário completo que parecia ser de uma selva. Todo foram para fora e arrumaram mesas como se fosse um bar. Tinha muito gente, mas preferiram sentar separados. Cada mesa com grupos de quatro ou cinco pessoas, alguns grupos tinham apenas duas ou três pessoas. Ninguém se sentou sozinho. Uma das garotas vestiu uma meia calça e um tutu de bailarina e ficou rodopiando pela casa, ela parecia um cisne, ou uma cegonha. Outra garota achou uma placa escrito vende-se brechó. E perguntou se poderia colocar lá fora, pois caso alguém tivesse interesse poderia comprar alguma peça e com aquele dinheiro poderíamos comprar alguma coisa. Aquela proposta me pareceu estranha, mas aceitei prontamente mesmo assim, mesmo sem entender para que serviria o tal dinheiro. Eu estava intrigada porque estava vendo pessoas que viviam como se o mundo nunca tivesse deixado de existir. Eu não conseguia ver o mundo da mesmo forma que eles viam. Minha casa era muito antiga, devia ter mais de cem anos e não havia nada dentro dela, nem ninguém vivendo naquela ladeira apertada. Um homem moreno, que pareci um japonês apareceu de repente na porta da minha casa, ele se apresentou como Kobayashi e não estava viajando com o pessoal do ônibus. Estava muito triste e pediu pra conversar comigo, ficamos conversando horas enquanto meus novos amigos haviam transformado a minha rua no mais novo e único point boêmio daquele lugar. Kobayashi era um adestrador e cuidador de onças e estava a procura da matriarca de todas. Com o fim do mundo, a natureza conseguiu reproduzir seus animais em uma escala inimaginável e muitos animais acabavam sendo cuidados por pessoas que tinham algum conhecimento e sensibilidade. Kobayashi me contou que ainda criança foi amigo de um engenheiro agrônomo, que por coincidência era padrinho do meu filho. Saímos pela rua e ele tinha um carro, me pediu para que o levasse ao edifício onde morou o padrinho do meu filho, realmente era uma das melhores vistas de lá. Ele parecia que estava muito triste e aquilo foi tomando conta de mim. Titubiei se era momento certo de subir, mas subimos e foi um vislumbrar orgástico. Meus olhos marejaram e nos abraçamos. Fazia muito tempo que não abraçava ninguém. Ele me disse que meu corpo estava quente e que eu esperava um bebê. Ele me perguntou quem era o pai… Eu não tinha namorado a muito tempo, e eu não soube responder. Durante o silêncio nos beijamos, e logo em seguida ele disse que não valia a pena ter uma criança sozinha naquele mundo e que eu deveria oferecer o meu bebê à mãe Natureza, ela ajudaria a criar a criança, pois ela fazia aquilo como ninguém, ouvir a sugestão daquele homem triste me deu medo, então percebi que algo ia acontecer, e pedi para que ele não fizesse isso comigo, que não fosse embora sem me contar o que estava acontecendo, ele respondeu, você sabe, você sempre soube, você veio da natureza, você também é selvagem. De repente, ele saltou do edifício. Aquele salto esvaziou a minha mente, eu não lembrava mais de nada que tinha feito em toda a vida.


Acordei, tudo estava molhado ao meu redor, parecia que eu estava delirando após uma febre, que estava sonhando a muito tempo, ao meu lado encontrei uma onça bebê. Quando olhei para a minha pele, eu percebi que tinha manchas espalhadas pelo corpo, meu corpo todo era pintado, eu quis gritar e ao gritar ouvi meu próprio rugido, então me levantei e saí para olhar lá fora e vi que estava em uma caverna no alto de uma serra. Minha vida era então era na natureza, e eu era uma onça selvagem.

Cristina Llanos Cruz

Serra da Capivara – Piauí

Brasil

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